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O CAMINHO DA LIBERDADE - II

Quando faltavam uns trinta metros (30 m) para chegar ao “Minière” onde estava deitado o camarada Amilcar Cabral, ouvimos de repente um novo disparo. Era o disparo feito por Vasco Cabral contra o Finhane da empresa. E ali, vimos o camarada Amilcar Cabral imóvel, sem voz, deitado no chão. Pus a mão na cabeça e o Hilário Rodrigues (Loló) que ainda não vira o corpo do chefe da guerra, perguntou-me qual era o problema indiquei-lhe que olhasse bem o que estava no chão.

Sugeri ao Hilário Rodrigues (Loló) que cobríssemos bem o local até a chegada dos dirigentes que vinham ver o cadáver do camarada Amilcar Cabral. Na altura os grupos de Inocêncio Cani, João Tomás, Momo Turé já tinham sido detidos e amarrados. O camarada Aristides Pereira foi metido no barco com destino a Bissau.

Depois deste acto dirigiram-se para a montanha onde libertaram os prisioneiros tugas que se encontravam nas “celas. Mas depois de uma hora de tempo, as tropas da Guiné Conakty invadiram a área do “Minière”. Entre os dias 27 e 28 de Janeiro os dirigentes que estavam nas linhas da frente chegaram para assistir o funeral de Amílcar Cabral.

Tempos depois do funeral de Amilcar Cabral, fui enviado como responsável máximo ao Centro de Instrução Política Militar em Dubrica a 25 quilómetros de Conakry, enquanto esperava viagem para a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Com o desenvolvimento da luta armada surgiram zonas libertadas que acho que eram fontes de todo o desenvolvimento humano em particular das áreas fora do controlo colonial, onde se encontravam escolas, internatos, semi-internatos, postos de saúde de base, estruturas de justiça, segurança, e, organização feminina. Tudo isso demonstrava, que essas zonas tinham estruturas iguais, às de um país independente ou seja, um Estado com leis. Por isso, era possível, em qualquer momento, deslocar-se de um lado a outro com grande segurança para cumprir missões nas áreas libertadas do interior e, também, ao exterior do país.

Falando de importantes batalhas em que participou o Coronel citou o bloqueio do Caboxanque. Na altura do acontecimento ele encontrava-se no grupo do comandante Tué Na Bangna. Os soldados inimigos vindos de Bedanda invadiram os principais pontos de acesso a Caboxanque. Uns vieram do lado do mato de Kura, do Iém Fala e Iém Kantoi enquanto outros entraram pela antiga estrada; enquanto isso um helicóptero rondava a ponte cais de Caboxanque. Além desses, havia outros tugas que chegaram pela bolanha de baixo e também alguns grupos atacaram a partir de Caboxanque de Cima e de Baixo.

Com esse desembarque das tropas coloniais ficávamos completamente bloqueados em Caboxanque, isso porque os nossos reforços não podiam vir nem da Base Central de Kafal e nem tão pouco podia vir de Tombali. Além disso tudo aviões caças-bombardeiros sobrevoavam para proteger as tropas inimigas. «Então para fazer face à situação difícil em que nos encontrávamos foi destacado rapidamente para Caboxanque um grupo de guerrilheiros comandados pelo camarada Tué Na Bangna, Fuduk Na Codum e Isnaba Na Famoni. «Era preciso utilizar a inteligência e uma boa estratégia para vencer a batalha e poder salvar os camaradas bloqueados.

O comandante Tué Na Bagna dividiu o seu grupo em três subgrupos -, o primeiro subgrupo comandado por ele mesmo dirigiu-se em direcção a Iém Fala e Iém Cantoi, o terceiro subgrupo comandado por Isnaba Na Famoni foi em direcção a Caboxanque Grande e porto. Esse dia foi um dia em que se pensava que não sobraria nem um homem armado no cerco de Caboxanque. Desde às 5 horas da madrugada até ao pôr-do-sol, os guerrilheiros com moral alto, combativos conseguiram aguentar as forças do inimigo com certeza e esperança, até a chegada dos nossos reforços. Mas antes das 19 horas, a vila de Caboxanque tornou-se muito fria, só se ouviam os zumbidos de mosquitos e o piar das aves inocentes que a procurar de comer ou poiso para dormir.

Recorda com tristeza que “ali, perdemos grandes combatentes entre os quais, o comandante do 2º Grupo, Fuduk Na Codum e o comandante do 3ª Grupo Isnaba Na Famoni, isso porque, os reforços em que tínhamos grande confiança que deviam vir da Base Central, chegaram muito tarde, quase a noite.”

«Com a perda dos dois comandantes ficamos desanimados. Foi muito triste para todos nós. Consciente das consequências que este desânimo era capaz de provocar no meio do resto dos combatentes, o comandante da missão Tué Na Bangna encorajou os camaradas vangloriando a sua valentia, seu patriotismo e até dizia: se houvesse agora mesmo uma ordem superior de atacar de novo o quartel de Bedanda, vamos cumpri-la sem hesitação camaradas.”

No norte, Frente São Domingos/Sambuia, todas as operações que houve, foram realizadas pelos Corpos de Exército 199 A/70,199 B/70 e 199 E/70 que desempenhavam duas funções: Reconhecimentos do terreno; e, Missões de artilharia pesada “Grade Reactiva”. Esses corpos actuaram por exemplo nas áreas de Varela, Susana, Cuntima, Farim, São Domingos, Ingoré, Bigene, Saré Bacar entre outros locais.

Entre as recordações também figura o golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980, sobretudo, quando entre 7 e 8 horas da manhã estiveram reunidos na sala do Departamento de Operações do Estado-Maior Geral os três Ramos das Forças Armadas para analisar a situação vigente e encontrar o mecanismo de como trazer o antigo Presidente da República, Luís Cabral, de Bubaque para Bissau. O cenário requeria, na altura, uma análise cuidadosa e uma opção estratégica, não somente para evitar que houvesse perdas de vidas humanas mas, também, para manter a situação sob controlo.

Neste caso, o primeiro variante apontado como solução foi destacar homens da infantaria terrestre que deviam deslocar-se de barco com marinheiros para Bubaque para resgatar Luís Cabral. Mas essa hipótese foi depois posta de lado porque se achava que era imprudente tendo em conta as a quantidade e tipos de armas que se encontravam em Bubaque nas mãos das escoltas e com as quais poderiam afundar o barco. Por exemplo eles podiam afundar um barco com canhão sem recuo B-10 antes de alcançar Bubaque.

A segunda variante apontada como solução foi alcançar a ilha de Rubane e, com os meios bélicos da artilharia pesada ameaçar a força que se encontrava em Bubaque e obrigá-la a submeter-se. Mas em caso extremo a artilharia poderia disparar contra Bubaque a partir da ilha de Rubane. Os participantes na reunião entenderam que esta variante não era a melhor, porque podia causar muitos danos entre as populações; por essa razão foi rejeitada levando a optarem pela terceira variante.

Então implementaram a terceira variante, que era utilizar meios aéreos para ir buscar o presidente Lúis Cabrale em Bubaque. O avião que podia chegar na altura em Bubaque, devia fazê-lo só com a ordem do camarada Kabi (João Bernardo Vieira Nino). Assim, João Bernardo Vieira “Nino” confiou a missão ao camarada Paulo Correia a quem ordenou que fosse comprida no mesmo dia. Para a execução da missão confiada, o camarada Paulo Correia indigitou os camaradas José Marques Vieira (Tchucho Btchutandé), Carlos Gomes, Binghatéba Na Beate, mais 50 militares armados que foram de avião a Bubaque, acompanhados do embaixador cubano no país.

No aeroporto de Bissalanca, antes do grupo levantar voo para o cumprimento da missão, foi destacado um caça-bombardeiro MIG-17F, pilotado por Adelino Duarte Gomes, que sobrevoou na altitude adequada a ilha de Bubaque. Quando o comandante Carlos Gomes recebeu as informações correctas, deu instruções ao responsável da logística da Força Aérea para que arranjasse um lençol branco que, dividido em quatro partes iguais, serviram de bandeirinhas - símbolo de paz.

Colocadas as bandeirinhas, partiram num helicóptero. O camarada Paulo Coreia informou o contingente que estava em Bubaque da chegada iminente do helicóptero que ia deslocar o presidente Luís Cabral acompanhado do embaixador cubano para Bissau.

Durante o voo, o Coronel José Marques Vieira perguntou-me qual seria a tolerância do tempo que íam conceder eu expliquei que, dado que as rotas eram diferentes, um helicóptero ia seguir em direcção a Ilha de Rubane, enquanto outro helicóptero, onde eu estava, seguiria a rota de Suga. O primeiro helicóptero era pilotado por Albino Malam da Costa.

Tenente-coronel Ussumane

Farp, 03 de Agosto de 2019

 

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