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O CAMINHO DA LIBERDADE - I

O Camarada Coronel Carlos Gomes, Combatente da Liberdade da Pátria nasceu no dia 18 de Março de 1946, em Caiar Sector de Komo, Região de Tombali. É filho de uma família camponesa que praticava e vivia da agricultura e pesca tradicional que se fazia com canoas de remo. O produto da pesca era destinado uma parte para a venda e outra para o consumo doméstico. Ingressou às fileiras do PAIGC em 1962, como guerrilheiro, juntamente com os camaradas Issufo Cassamá e Abdú Injai.

Antes do início da luta armada o Coronel Carlos Gomes era navegador de canoas grandes que tinham a capacidade de transportar 200 sacos de arroz. Navegava até às ilhas Bijagós de Canhabaque, Bubaque, Ilha das Galinhas na tabanca de Anbancanam, Suga, Caravela, Orangozinho e Orango Grande, levando arroz para trocar com produtos tais como: óleo de palme e coconotes que eram depois revendidos em Bolama.

Frequentou a Escola Missionária de Catió donde foi, mais tarde, transferido para a Escola Agrícola “Doutor Silva Tavares” em Bissau, situada na granja “Pessubé”. Era o aluno nª 23.

Já estudante em Bissau aproveitava sempre as férias de natal e de páscoa para ir a Caiar visitar a família paterna e os colegas de infância. Foi nesta tabanca natal que, em 1961-1962 ouviu falar pela primeira vez do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) através do seu tio Infamara Dabó, que era um amigo íntimo do camarada Kabi (João Bernardo Vieira).

Era o período de mobilização política dos camaradas para a luta armada. A notícia sobre a existência de um partido que queria lutar para expulsar os colonialistas portugueses da Guiné e de Cabo Verde fez crescer na cabeça do jovem, ideias nacionalistas que o levaram à militância no partido político.

Assim, após as férias de natal, Carlos Gomes voltou a Bissau com uma outra ideia, interromper a carreira estudantil para integrar-se às fileiras do PAIGC. Isso foi em 1962, como guerrilheiro, juntamente com alguns camaradas entre os quais Issufo Cassama, Abdú Injai.

Clandestinamente abandonou a cidade de Bissau para o interior do país onde foi juntar-se aos guerrilheiros determinados a expulsar os tugas e proclamar a independência. A primeira barraca encontrada no seu itinerário foi a barraca do comandante Kufor dinde seguiu para a do Comandante Clautché, passando por Mafelé, Dango para finalmente chegar à barraca do comandante Quadé Na N´Dami. Foi precisamente neste local que enviou um recado informando ao seu tio Infamara Dabo, que vivia em Cubucaré, onde se encontrava e que tinha sido bem recebido e bem tratado.

Mas no mesmo mês, passando duas semanas após sua chegada nesta barraca, o Comando recebeu uma mensagem do comandante Kabi informando que todos os camaradas que tinham fugido de Bissau e que no momento encontravam-se na barraca de Quadé Na N´Dami fossem encaminhados para a Base Central de Gansala a partir da qual seguiam para a Base Central de Kafal (Cubucaré).

Nos primeiros tempos de vida nesta barraca, Carlos Gomes, Issufo Cassama e Abdú Injai foram nomeados encarregados da distribuição de arroz na lala de Kafim. Mas como a quantidade do arroz era grande, para evitar que se estragasse, resolveram distribui-lo às Zonas 7, 8 e 11 e, também, aos restantes sectores onde havia fome na altura. Pelo mesmo motivo decidiram emprestar uma parte desse arroz às populações das tabancas. Entretanto, para evitar o surgimento de problemas no momento da cobrança os responsáveis efectuaram a entrega do produto com conhecimento e sob a responsabilidade do chefe de cada tabanca. A quantidade do arroz reembolsado pelas populações depois da colheita era revertida para o consumo dos guerrilheiros.

Mas em 1963-1964, tendo em conta as necessidades da luta, ele foi transferido para barraca do camarada Tuwé Na Bangna como guerrilheiro e professor, em Caboxanque. O Coronel Carlos Gomes tinha como primeiro chefe directo na guerrilha o camarada Caetano Barbosa.

O Coronel Carlos Gomes fala de um herói que conheceu e cujo nome ficará indelével na sua memória. Depois da sua chegada ao norte do país, em 1970, entrou logo em colaboração com um comandante fiel, dinâmico, que tomava as decisões certas sempre que intervinha em qualquer coisa. Esse homem era o Tenente-coronel Joaquim Mantam Biagué, comandante de bateria ligeira.

Descreve Joaquim Mantam Biagué como homem exemplar, quer no combate, quer no comando quando passou a assumir o cargo de Comandante-adjunto do Corpo de Exército. As façanhas de Joaquim Mantam Biagué eram admiráveis.

Para este oficial superior Amílcar Cabral era um líder admirável para toda a humanidade. Tinha uma grande visão, sabia muito bem como colocar os seus dirigentes para dirigirem e exigir o cumprimento das tarefas atribuídas.

Amílcar Cabral tinha uma grande capacidade de captação e de memorização pois “nunca esquecia os nomes dos combatentes, dos camaradas e das crianças que contactava”.

Em 1973 o Coronel Carlos, que se encontrava na Frente Norte, foi contemplado com uma bolsa de estudos para a URSS que não se concretizou porque, quando chegou em Conakry, uma semana depois ocorreu o assassinato do líder, camarada Amílcar Cabral.

Ainda se recorda que no dia 20 de Janeiro a noite foi realizada na Escola Piloto em Ratoma uma reunião para a qual foram convocados todos os dirigentes do partido e da luta juntamente com a delegação angolana que se encontrava em Conakry. Tomaram parte nessa reunião, altos dirigentes como Osvaldo Vieira e mais outros. Inácio Soares da Gama era o comandante do Centro de Instrução Politica-Militar em Dubrica, a 25 km de Conakry.

Recorda que nessa noite Inácio Soares da Gama ao passar vira-o em cavaqueira com Parker, Hilário Rodrigues, Baió Camará; logo depois passou a sua esposa que se chamava Albertina Dabó que também os cumprimentou. Então como era conhecido de Albertina Dabó, perguntou-lhe: “Moras no bairro de Bonfim? Porque estás aqui a esta hora? - Ela respondeu: Trouxe o jantar do Inácio.” Depois dessa conversa viram o comandante Inácio deslocar-se à residência de Momo Turé.

Como já era noite, Carlos Gomes e seus companheiros alguns minutos depois abandonaram o local de “djumbai”. Quando foram para a cama de repente ouviram o primeiro disparo de uma arma. Perante a incerteza, se se tratava realmente de um disparo de arma ou não, começaram uma longa discussão. Carlos Gomes que possuía uma boa experiência militar disse, a Baió Camará com firmeza “é um disparo de arma”. Mas Baió Camará respondeu “não, isso é Tuki” (toca-choro, ritual aos mortos). Mas, antes de terminarem a discussão voltaram a ouvir um segundo disparo de arma.

De imediato levantaram-se, saíram da caserna e dirigiram-se para a zona “Minière” (Mineira) a direcção donde provinham os disparos. Quando ali chegaram, viram que naquele momento decorria uma reunião no interior da Escola Piloto “Ratoma”, estavam lá todos os dirigentes do PAIGC. Na altura o Coronel não tinha arma, por isso dirigiu-se ao quarto do Parker e tomou uma arma; naquela altura, Parker) separou-se deles mas levando com ele uma pistola. Assim quando Carlos e Baió Camará saíram o Inácio N’gobé e um outro camarada cujo não se lembra, o companheiro do serviço do dia, saíram para lhes informar de que tinham ouvido três disparos de arma no bairro “Minière”.

O Coronel descreva a progressão: “Avançamos em direcção ao “Minière” atravessando a estrada na berma da qual se erguia um mangueiro. Quando chegamos ao pé dessa árvore vimos em frente, sete (7) homens armados e uma mulher, que era a esposa de Amilcar Cabral, logo dissemos “alto” e respondeu Bikóda, a escolta principal de Cabral.

Tenente-coronel Ussumane

Farp, 22 de Julho de 2019

 

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