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Bigene 1972 “OPERAÇÃO SILENCIOSA” A NEUTRALIZAÇÃO DA ARTILHARIA PESADA COLONIAL

Para desencravar a Zona Norte - criar um corredor livre e seguro entre Farim e Barro - com vista a facilitar a movimentação da guerrilha e a população que apoiava a luta, o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) tomou a decisão de assaltar o quartel colonial de Bigene, principal obstáculo ao avanço da luta armada naquela área, que tinha duas peças de canhões de 130 mm cujos disparos causavam perdas humanas e danos materiais e morais entre os combatentes da área e dificultavam as movimentações tanto no Norte como no sentido Leste - Norte.

O aumento no seio dos combatentes, de novos quadros militares formados nos países amigos, e a formação de novos corpos do Exército Regular nas fileiras da guerrilha revolucionou a sua capacidade táctica e combativa. Assim, estavam criadas as premissas de mudar a forma de luta para derrotar o inimigo e expulsá-lo dos territórios ocupados. Intensificaram-se as operações contra os quartéis e contra as colunas militares coloniais que faziam a ligação entre eles, desse modo, viam as suas manobras cada vez mais limitadas.

Graças a essa evolução, positiva, a Direcção Superior do Partido, decidiu, sob as orientações do Secretário-geral, Amilcar Lopes Cabral, criar entre Farim e Barro, além da fronteira com o Senegal, corredores livres para facilitar as movimentações dos guerrilheiros ao longo daquele espaço norte.

Considerando a importância histórica da “Operação Silenciosa”, entrevistamos o Brigadeiro-General Albertinho António Cuma, Chefe de Divisão da Educação Cívica Assuntos Sociais e Relações Públicas do Estado-Maior General das Forças Armadas, que esteve presente no teatro das operações.

farp – Brigadeiro-General Albertinho Cuma (BGAC) - A Direcção Superior do partido tomou a decisão de assaltar o quartel colonial de Bigene e neutralizar os canhões de 130 mm que não davam tréguas aos guerrilheiros da zona. Com que forças contava o Partido para o sucesso da operação?

BGAC – Tudo tornou-se possível a partir do momento em que se mudou a estratégia e o sistema de combate com a chegada, nas fileiras da guerrilha, de novos quadros militares formados nos países amigos do PAIGC. Nesta óptica, um grupo de guerrilheiros da Frente Norte recebeu instruções do Partido para neutralizar, por completo, o quartel colonial de Bigene, nomeadamente, as duas peças de artilharia terrestre (canhões de130mm) que impediam as movimentações dos combatentes”.

É bom sublinhar que a tabanca de Bigene que se encontra situada a cerca de 16 quilómetros da fronteira com Senegal, tinha um quartel fortificado equipado com dois canhões de 130 milímetros, que não davam tréguas. Deste modo, Direcção Superior do Partido tomou a iniciativa de destacar um grupo de guerrilheiros corajosos, bem treinados, equipados, que tinha como missão fundamental assaltar, em plena luz do dia, o quartel de Bigene e destruir os dois canhões.

A perigosa e complexa missão dirigida pelo valente Comandante, Joaquim Mantam Biagué, foi cumprida com êxito, no período indicado por Amílcar Cabral. Para realizar com êxito a missão, os guerrilheiros aproveitaram o momento em que o grosso da força colonial saiu para uma patrulha na estrada que liga Bigene - Barro. Conseguiram penetrar no interior do quartel colonial, destruir as duas peças de artilharia pesada bem como o arsenal, incluindo as munições; incendiar o depósito de combustível e dar a população a oportunidade de saquear algumas lojas. O assalto que ocorreu na época das chuvas, no mês de Agosto de 1972, surpreendeu toda a força colonial que não conseguiu disparar nem um tiro. Não houve perda humana nem material do lado dos guerrilheiros.

O reduzido número dos tropas coloniais que na altura se encontrava no quartel não teve outra solução senão abandonar o local para se salvar.

farp - Como foi preparada a “Operação Silenciosa”?

BGAC - Operação foi preparada e planeada a partir de Conakry pelos dirigentes do Partido e depois comunicada ao comando da Frente Norte em Sambuia, o qual enviou, mais tarde, um lote de fardamento (camuflado português), incluindo armas, lança roquetes, AKM novas, cintilas cubanas e mantimentos para os homens alinhados para a missão. Na Frente Norte foram destacados um total de 25 guerrilheiros, sendo 19 da barraca de Ermon Kono e 6 da barraca de Cumbanghor.

Depois da distribuição dos equipamentos, os guerrilheiros receberam durante três dias, as instruções sobre a realização da missão incumbida pelos órgãos superiores do Partido. Quando terminou o período de instrução, os 25 guerrilheiros, bem equipados, deixaram Ermon Kono de carro para a barraca de Fayar e depois para Cumbanghor onde permaneceram durante 5 (cinco) dias antes de passarem para o local a partir do qual devia ser lançada a operação.

Como base central, para a realização da operação, foram escolhidas as barracas de Sindina e Pabedja. Tínhamos como guias os camaradas Ansu Bercko, Comandante de uma das barracas da área; Issufo Bodjam e Adjal Manga. As barracas de Sindina e de Pabedjal estavam situadas entre 9 e 12 quilómetros da tabanca de Bigene..

O nosso destacamento estava instalado nessa área vigiando as movimentações das tropas coloniais e procurando buracos (oportunidade) para realizar em plena luz do dia, o assalto relâmpago contra o quartel e destruir as duas peças de canhões 130. Para se ocupar das nossas refeições diárias, o Comando da missão nos afectou dois rapazes; tínhamos igualmente connosco alguns bolos tradicionais preparados a base da farinha de milho preto pelas mulheres da aldeia de Samanancunda Kolda.

farp - Qual era o objectivo da vossa presença nesse local?

BGAC - Era permanecer e estudar as possibilidades de chegar Bigene entrar na tabanca e dar um golpe duro ao quartel. Tínhamos como Comandante da missão, Joaquim Mantam Biagué. No grupo estavam eu, enquanto chefe do grupo de atiradores de bazooka, e os camaradas Gabriel Iabna Kundock, Alupa Manga e Adjal Manga.

Fazíamos pequenas incursões secretas até perto dos lugares onde a população cultivou a mancarra, um espaço livre que nos permitia ver o quartel e depois voltar ao nosso esconderijo. Os apoios da população ajudavam de facto na observação dos movimentos dos tugas e segui-los atentamente. O que sempre nos interessava, não obstante os riscos, era procurar uma posição favorável para realizar o assalto planeado contra o quartel, o que devia acontecer somente no momento em que chovia porque era o único período propício que se podia aproveitar para avançar até ao quartel atravessando os vastos campos lavrados, sem ser vistos ou sem que ninguém desse conta.

Era a altura em que os lavradores ficavam mais ocupados nas suas actividades e as tropas coloniais também iam à patrulha. Era o momento favorável para avançarmos sem despertar a atenção da população porque nós vestíamos uniformes camuflados do tipo usado pelas tropas coloniais. Tudo o que fazíamos eram instruções dadas pelo Secretário-Geral do Partido, camarada Amílcar Cabral.

O grupo ficou no mato nos arredores de Bigene vigiando as movimentações das tropas portuguesas e, também, aguardando a queda oportuna da chuva para poder atravessar os grandes espaços de mancarra antes de penetrar no quartel.

Por esta razão, formos obrigados a permanecer nos arredores de Bigene durante uma semana fazendo constantes vai-vem entre a barraca e as proximidades do quartel. Todos os dias deixávamos a barraca de manhã e voltávamos à noite. Era preciso ter paciência, persistência, e, espírito de patriotismo.

farp – A partir de onde vieram os guerrilheiros para assaltar o quartel?